Conhecido como o ‘Rei dos Reis’, Helmut Newton é um dos fotógrafos de moda mais emblemáticos de todos os tempos. O estilo provocativo e distintivo nas suas imagens a preto e branco são um cunho marcante neste homem. Em 1957, Newton conseguiu um contrato com a British Vogue e, a partir de então, trabalhou com clientes desde Harper’s Bazaar à Playboy. Homenageado com muitos prémios ao longo da sua carreira, a imagem mais icónica do fotógrafo francês é conhecida como ‘Le Smoking’, com uma modelo a fumar, vestida de smoking.  Yves Saint Laurent na Rue Aubriot em 1975, Paris.

‘Le Smoking’ Paris , 1975, Vogue Francesa, Helmut Newton

Helmut Newton teve um passado marcante. Nasceu em Berlim, em Outubro de 1920, tendo manifestado desde muito cedo a sua obsessão pela fotografia. Durante a adolescência trabalhou com o famoso fotógrafo Yfa, em Berlim.

Na década de 1940, abriu um estúdio em Melbourne e pouco tempo depois casou com a actriz June Brown, que também se tornou fotógrafa, usando o nome Alice Springs. Nos anos 60, o casal mudou-se para Monte Carlo e Helmut Newton começou a afirmar-se no mundo da moda, produzindo criativos e divertidos editoriais para as mais conceituadas revistas de moda inglesas, como a Vogue.

Mas foi no início da década de 1970 que Newton encontrou a estética que o tornou tão famoso. Os seus provocantes retratos de mulheres nuas foram muitas vezes considerados escandalosos e perturbadores. Newton adorava fotografar mulheres altas, de ombros largos e longas pernas, transformando-as em deslumbrantes gigantas.

Autorretrato de Helmut Newton com modelos para Vogue Homme. Paris 1981

Newton mudou a fotografia de moda. O seu nome ficou associado a vários designers, em especial a Yves Saint Laurent.

“O seu mundo de imagens glamourosas era simultaneamente chocante e atraente”, declarou Tom Ford ao International Herald Tribune.

“A ideia de Tom Ford de uma mulher forte com maquilhagem, cabelo arranjado e saltos altos foi muito influenciada pela fotografia de Helmut, tal como a roupa de Saint Laurent”, afirmou Anna Wintour, editora-chefe da Vogue.
“Procurámos sempre algo provocador, surpreendente e perverso em Helmut Newton”, acrescentou Wintour

Foto da capa: Helmut Newton

Nas imagens de Newton, as mulheres encontram-se maioritariamente em situações precárias ou em atos eróticos, mas a natureza das fotos depende da interpretação de quem as observa. Um cenário comum utilizado por Helmut é os quartos de hotel, o que muitos interpretam como retratos de relacionamentos entre desconhecidos. Outra visão comum é que, nessas imagens, Newton procura retratar o tumulto interno vivido pelas mulheres por à custa dos valores da sociedade da época. Enquanto, em 1960, sua cota de participação num mundo de homens crescia, a identidade feminina tradicional não era sacrificada, uma dualidade que Helmut expressava com imagens repletas de poder e submissão, envoltos numa aura de sensualidade.

Retrato de Junne Newton. Foto: Helmut Newton

“A fotografia de algumas pessoas é arte, mas não a minha. Arte é uma palavra suja na fotografia”

Helmut Newton
Foto: Helmut Newton

“Qualquer fotógrafo que afirma não ser um voyeur é ou um estúpido ou um mentiroso”

Helmut Newton
Mas o que eleva as fotografias de Newton, na sua maioria realizadas num contexto comercial, ao status de arte? O colunista do The Guardian Adrian Searle levantou essa questão num artigo publicado no jornal inglês em 2001, três anos antes da morte do fotógrafo. “Após três décadas de polémica feminista, Newton não passou dos limites? Por que as suas imagens são ainda tão populares? Por que as suas fotografias são arte, se tudo o que ele fez foi comercial, parte da indústria da moda?”, introduz.
Ao longo do texto, o autor conclui que o mérito de Newton está no fato de que as suas representações dramáticas, sejam elas de modelos despidas ou vestidas, provocaram muito mais do que agitação: mexeram com tabus, com sexo e poder, com a complexa relação entre fotógrafo e modelo, imagem e espectador. Quando entrevistado, ele admitia sem constrangimento ser um voyeur, uma característica que, para muitos, está intrínseca na fotografia.
Autorretrato de Helmut Newton. Ao lado, sua esposa, June Newton. Foto: Helmut Newton

Muitos identificam mas suas imagens qualidades usualmente encontradas na Fotografia Policial e no Fotojornalismo: luzes duras, flash forte, destaque no objeto central e escurecimento dos detalhes menos relevantes. A diferença fundamental é que os assuntos de Newton não se mostravam surpresos ao serem fotografados, pelo contrário. A consagração da sua estética fez dele, também, prolífico na fotografia de retratos. Passaram pelas suas objectivas personalidades do cinema, do teatro e do mundo das artes, especialmente a partir dos anos 1980, quando ele colhia os frutos do seu sucesso no mundo da moda. Famosos queriam ser retratados por Helmut justamente pela carga sedutora e emocional de suas imagens.

Retrato de Madonna. Foto: Helmut Newton

Foi aos 75 anos que ele abandonou quase que por completo os cliques de cenários decadentes com modelos milionárias, pois alegava já ter fotografado nus o suficiente para mais de uma vida inteira. Nas suas palavras, não tinha mais contribuição alguma para o seu antigo tema principal: “É apenas pele demais, não sobraram ideias”, afirmou, em entrevista.

“O meu trabalho como um fotógrafo de retratos é seduzir, encantar e entreter”

Helmut Newton
Retrato de Padma Lakshmi. Foto: Helmut Newton

Em 1970, Helmut Newton não pode fotografar uma campanha para uma marca de cigarros por conta de uma gripe e enviou a sua esposa no seu lugar. Mesmo sem nenhuma experiência fotográfica como profissional, June fez da sessão um sucesso e deu início, sob o pseudónimo de Alice Springs, à sua carreira na fotografia. Sob forte influência do estilo sensual dos trabalhos assinados pelo marido, em especial nos seus trabalhos para editoriais de moda, June conseguiu criar a sua identidade,  que ganhou força na fotografia de retratos. Yves Saint Laurent, Gore Vidal, Robert Mapplethorpe, Nicole Kidman e Angelica Houston são os protagonistas de alguns dos seus registros mais expressivos. Desde 2005, os seus trabalhos são regulamente expostos no Helmut Newton Institute.

Autorretrato de June Newton, de psedónio Alice Springs.
Retrato Helmut Newton

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